quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nós, os predadores, por Lya Luft





Sempre me impressionou quanto persiste em nós o homem das cavernas, que precisava ser agressivo para sobreviver, ou nem suas crias nem suas fêmeas nem ele próprio resistiriam às inclemências do clima, dos animais ferozes, da escassez de recursos. Nós às vezes temos de recorrer àquele remanescente feroz que afinal povoou a Terra. Teimou em raciocinar, produzindo terror e melancolia; teimou em andar ereto, e passou a sofrer da coluna; teimou em ter poder e fazer política, e aí é que nos ferramos.


Não é fácil entender, mas para muitos o poder é essencial. Dominar os filhos, dominar os pais, dominar a parceira (o parceiro também, não vamos esquecer as esposas-megeras), dominar o outro que está no carro da frente, ou que ousa nos ultrapassar. O que conseguiu promoção, o que vendeu mais livros ou quadros, o que tem mias pacientes, o escritório maior. O tema da dominação poderia ser mais avaliado em relação a seu contraponto, o da parceria. Pois ela é possível. Não somos só animais cruéis por obrigação de sobrevivência: podemos ser também compreensivos, olhando o outro como se não fosse um inimigo mortal, mas alguém metido no mesmo barco, sofrendo as mesmas dificuldades, querendo coisas como paz, presença, parceria, sentido para vida, dignidade.

Mas continuamos privilegiando o cara das cavernas. Em casa, se pudéssemos, estaríamos (estamos?) boa parte do tempo aos berros, autoritários, egoístas e inseguros - pois os seguros de si não precisam ser violentos. Ou empregamos ardis para armar contra aquele que pode nos lançar sombra ou competir conosco: ele vai para a lata de lixo, e nós achamos que ninguém percebe. Percebem, ah sim.


Tudo isso que escrevi até aqui foi para contornar um assunto espinhoso. Se eu falar contra um rico empresário, serei aplaudida. Se criticar ou questionar alguém mais humilde, serei crucificada, olha essa aí, a elitista. O espinhoso é comentar (com todo o respeito) sobre o deputado de profissão palhaço, digna profissão - pessoalmente em criança eu tinha de palhaços um medo profundo e inexplicável, por conta da minha neurose. Que ele tivesse mais votos do que qualquer outro, mostra consideração e carinho pelos palhaços - ou desencanto pelos políticos? Achei esquisito ele estar na Comissão de Educação e Cultura do Congresso, e ainda não decidi, com meus botões, se isso é para elevar a cultura ou para nos deixar alertas.


Aí leio que o deputado contratou assessores também palhaços ou humoristas "para lhe dar idéias", trabalhando em casa a 8.000 reais por mês. Não tenho nada com isso, pensei de saída. Mas depois decidi: tenho, sim, pois nós, o povo, bancamos esses salários e muito mais. E, embora esse caso seja infinitamente mais inocente do que a corrupção e o cinismo que andam por aí, e muita injustiça que se comete contra homens dignos, senti receio em relação a como isso tudo acabaria.


Quero escrever contra a dominação e violência: estou cometendo uma violência escrevendo sobre esse caso? Estou sendo uma predadora? Talvez seja inevitável. Vai ver, somos incorrigíveis predadores: do outro, do mundo, da mãe Terra, que anda resmungando alto, de nós mesmos, porque nem sempre nos tratamos muito bem. Corremos aflitos sobre a casca inquieta da Terra, esbarramos uns nos outros, passamos por cima uns dos outros, nos comunicamos mal à beça, estranhamos até os íntimos, construímos mil complicações e intrigas. Trocamos as cavernas escuras com fogueiras e morcegos por edifícios de concreto e vidro, ou pelos meandros do universo cibernético. Estamos civilizadíssimos, temos momentos de ternura, mas em nós espiam olhos destrutivos. Será preciso muita dor, muita carnificina, muita solidão, muito frio e medo para que a gente consiga aos poucos reprimir mais a violência física ou moral, incluindo a corrupção, a malandragem, os joguinhos de poder e a exploração das carências alheias, para nos transformarmos de predadores em construtores de uma civilização bem diferente desta em que somos trogloditas com o dedo no touch pad.




Fonte: Revista Veja, Edição 2212 | Ano 44 | nº 15

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